Eu penso que nós - nós, todos nós, eu, você, sua mãe e seu pai também... e também aquela pessoa que só cruzou com você uma vez na vida, em uma plataforma do metrô, e apesar de vocês morarem na mesma cidade, e gostarem dos mesmos filmes, talvez até dos mesmos livros, vocês nunca mais vão se ver na vida - eu penso que a gente acredita que tomou a decisão certa como uma forma de proteção. Seguramente a neurociência e a psicologia poderiam explicar isso, cada disciplina desde seu cerne, desde sua visão. Mas... agora eu não quero buscar referências, todos os estudiosos e especialistas que me desculpem, porque esse texto é apenas uma divagação. Penso que nós acreditamos que tomamos a decisão certa e tratamos sempre de defender isso, das mais variadas maneiras. Afirmamos e reafirmamos nossa decisão para o vizinho, para o amigo - o novo e o antigo - para a família, para o antigo chefe, para aquela amiga com quem você estudou no primário e que mora em outro país e faz muitos anos que você não...
A poesia me visita todos os dias. Quando a filha traz uma flor pequena, roubada de algum jardim... Quando o dia amanhece e o filho, recém desperto, diz... "mãe, tô melhor" - depois de dias consumido pela febre. Quando os dois silenciam, e logo os descubro sentados no chão, cada um com um livro. Por onde olho eu encontro a poesia. A poesia na cozinha tem muitos cheiros e sabores... arroz com feijão, café com leite, bolo de cenoura com chocolate, chá de hortelã com camomila. No jardim a poesia tem cheiro e cor de lavanda. A noite traz a poesia dos filhos adormecidos, e o silêncio contemplativo. As estrelas no céu me trazem a luz e a poesia do passado. A poesia só não me agracia com suas palavras... sua métrica, sua musicalidade, todas suas belas e admiráveis rimas... Pródiga, sempre ao alcance do meu olhar, nunca se permite tocar.